O amor de Arlequín

Posted on sábado, 1 de fevereiro de 2014 by Ewerton Fintelman | 0 comentários
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Nunca negara sua raiz. Sabia que era do Carnaval. Emocionava-se ao ouvir das ruas o canto do povo. Seu coração palpitava junto aos surdos que marcavam o compasso para as tradicionais cantigas de carnaval. Chamava Arlequín, mas não mascava tabaco. Vivia o carnaval como em crônicas de Eneida de Moraes. Prestava atenção em todos os detalhes da festa com olhos tão atentos que sua Colombina nunca se descobrira em meio a folia.

O carnaval do Rio de Janeiro pouco se assemelhava com as festividades em torno da Commedia Dell'arte, mas seus personagens se mesclavam em cada acorde da trilha sonora das grandes festas. Era um carnaval aparentemente comum. Os blocos de sujo tomavam conta das ruas alegrando a cidade. A Av. Presidente Vargas estava igualmente caótica com a concentração de alegorias prontas para mais um desfile na Passarela do Samba. Mas nesse carnaval Pierrot e Arlequín foram os mesmos personagens. 

Pierrot chorava por saudades de sua Colombina. Tinha ido embora para ficar com o senhor das notas verdes. Chorava ao cruzar a estação Praça Onze, onde o luar de carnaval já havia emoldurado seu grande amor. Por muitos carnavais assim chorou, por muitas luas suplicou por sua Colombina. Ela havia esquecido Pierrot. 

Por muito fez valer sua alcunha Pierrot. Palhaço triste, por muitos burro, alvo de piadas por sempre amar a mesma Colombina que partiu. Viveu por tempos no mundo da lua. Chorou o que tinha de chorar. 

Em um dia de carnaval após muitos carnavais Pierrot viu-se transformar em Arlequín. Seu coração simplesmente voou. Era Colombina. Não a Colombina que o abandonou. Talvez sacrílego definir como "uma Colombina". Era artigo definido: a Colombina. 

Um carnaval onde a história se inverte. O Pierrot se transforma em Arlequín, vê seu coração dilacerado bater de novo. Nada entende, nada sabe, apenas vive o carnaval dos carnavais. Aquela marchinha proibida tocara de novo sem trazer a tristeza. Um sonho onde o despertar era praticamente criminoso.

A estação Praça Onze viu um novo sorriso de alguém que por muito passou triste. O Carnaval estava mais feliz. Até mesmo o caos da Av. Presidente Vargas. Muitos já se perguntam onde essa história vai dar. E apenas se sabe que ela continua. Quem sabe?

=)

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