Carta ao saudoso amigo Álvares

Posted on sábado, 23 de abril de 2011 by Ewerton Fintelman | 0 comentários
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Mais uma das minhas viagens fantasiosas. Desta vez fui mais longe. Projetei um personagem que escrevia uma carta ao seu amigo de infortúnio, o poeta Álvares de Azevedo. Mais um dos meus tributos aos estilos de época da Literatura que mais me intrigam e despertam o instinto de investigação. O conflito dos tempos torna a carta com toques de cronismo mesclados com o drama típico do mal do século. Segue:

"Rio de Janeiro, 24 de abril de 2o11

Caro amigo Álvares,

Saiba que lendo suas palavras encontro refúgio para minhas desaventuras. Ao chorar somente por ela encontro em seus versos a explicação para meu desgosto.

Ela, que poderia trazer-me a felicidade, trouxe-me o não dilacerante, amargo, como meu whisky puro carvalho. Ao beber do amargo, sinto a materialidade do meu abstrato.

Amar, meu amigo, foi nosso maior erro. Solidão foi nosso destino. Constatar esse dissabor, mesmo óbvio, faz cair de meus olhos lágrimas, apenas derramadas por ela. Ela, que ao me despertar os sentimentos mais puros, despertou o mais desgraçoso: a esperança. A esperança que me fez achar que um dia poderia ser feliz ao seu lado. A esperança que me tornou anfitrião dos meus desejos de amor. O infortúnio se deu pelos acompanhantes dos desejos, que trouxeram consigo as chagas da decepção.

Amigo, tu que não tocaste a virgem de seus versos, não sabes o quanto escreveste os meus furores! Ah, como sonhei! Fui ingênuo por achar que ela um dia poderia me olhar com olhos que não sejam os de pena pelo que sou. Iludido por falsos amigos que fizeram-me acreditar que ela seria um dia minha. Tolo! Tolo!

Quando leio tuas lembranças dos quinze anos, amigo, vejo que compartilhamos da mesma dor. Amigo, queria poder confortá-lo, mas o que me conforma nisso tudo é saber que, apesar da distância, veremo-nos em breve, seja lá onde estiveres agora. Se a morte nos distancia hoje, o amanhã me fará cinzas aqui na Terra, mas renascerei delas ao teu lado, amigo, apenas para sair por aí , beber para esquecer o quão infelizes fomos.

Com ternura de seu amigo."

É isso. Confesso que até hoje literaturas como o mal do século me despertam um interesse absurdo. É devorando poemas de Álvares que criei este personagem. É uma carta que mescla modernismo e romantismo. São textos que escrevo de forma experimental, apenas como coisas que eu gostaria de ver, afinal, se não existe, por que não criar? É bom, acredite.

Forte abraço a todos!

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