Reflexões do não

Posted on sexta-feira, 29 de abril de 2011 by Ewerton Fintelman | 1 comentários
Marcadores:

Acho engraçado a curiosidade humana em entender o funcionamento de sua própria mente, isto é, entender os limites entre o saber e a ignorância, capacidade e incapacidade. Mais curioso são as fronteiras entre o que é ou não é autônomo. Às vezes o sofrimento parece ser opcional, por exemplo, mas que opcional é esse que não conseguimos controlar?

O concreto é exato, relativamente fácil de se explicar. Se um átomo é um átomo, ele nunca deixará de ser um átomo, irrefutável. E os ódios que se transformam em amores e vice-versa? Ah, o abstrato que desperta os olhares franzidos.

Hoje à tarde enquanto ouvia um LP, fiquei refletindo a respeito da letra de uma música que tocava. Dizia: "Acaba a valentia de um homem quando a mulher que ele ama vai embora, [...] e o mais valente dos homens chora". E quantos "machões" por aí já choraram como criança por uma alma feminina, hein? O sentimento de rejeição é uma facada no coração: sangra e não tem volta.

Às vezes fico lendo algo da poesia Romântica e pensando como sofrer por amor já é algo imortalizado em versos. Suicídios, dissabores, tudo por amor. Que substantivo complicado esse! Como dizia o próprio Álvares, "como sofre aquele que lamenta um 'não' ao relento". Sim, o não é, de fato, complicado. Complexo por gerar dúvidas. A primeira delas: por quê? Não adianta, para o que a ciência não explica, não há lógica. Não há quem errou ou quem acertou, às vezes as lágrimas traduzem a emoção, simplesmente. Deixar elas caírem não torna ninguém mais fraco. Emoção não é fraqueza, é humano.

Carta ao saudoso amigo Álvares

Posted on sábado, 23 de abril de 2011 by Ewerton Fintelman | 0 comentários
Marcadores: ,

Mais uma das minhas viagens fantasiosas. Desta vez fui mais longe. Projetei um personagem que escrevia uma carta ao seu amigo de infortúnio, o poeta Álvares de Azevedo. Mais um dos meus tributos aos estilos de época da Literatura que mais me intrigam e despertam o instinto de investigação. O conflito dos tempos torna a carta com toques de cronismo mesclados com o drama típico do mal do século. Segue:

"Rio de Janeiro, 24 de abril de 2o11

Caro amigo Álvares,

Saiba que lendo suas palavras encontro refúgio para minhas desaventuras. Ao chorar somente por ela encontro em seus versos a explicação para meu desgosto.

Ela, que poderia trazer-me a felicidade, trouxe-me o não dilacerante, amargo, como meu whisky puro carvalho. Ao beber do amargo, sinto a materialidade do meu abstrato.

Amar, meu amigo, foi nosso maior erro. Solidão foi nosso destino. Constatar esse dissabor, mesmo óbvio, faz cair de meus olhos lágrimas, apenas derramadas por ela. Ela, que ao me despertar os sentimentos mais puros, despertou o mais desgraçoso: a esperança. A esperança que me fez achar que um dia poderia ser feliz ao seu lado. A esperança que me tornou anfitrião dos meus desejos de amor. O infortúnio se deu pelos acompanhantes dos desejos, que trouxeram consigo as chagas da decepção.

Amigo, tu que não tocaste a virgem de seus versos, não sabes o quanto escreveste os meus furores! Ah, como sonhei! Fui ingênuo por achar que ela um dia poderia me olhar com olhos que não sejam os de pena pelo que sou. Iludido por falsos amigos que fizeram-me acreditar que ela seria um dia minha. Tolo! Tolo!

Quando leio tuas lembranças dos quinze anos, amigo, vejo que compartilhamos da mesma dor. Amigo, queria poder confortá-lo, mas o que me conforma nisso tudo é saber que, apesar da distância, veremo-nos em breve, seja lá onde estiveres agora. Se a morte nos distancia hoje, o amanhã me fará cinzas aqui na Terra, mas renascerei delas ao teu lado, amigo, apenas para sair por aí , beber para esquecer o quão infelizes fomos.

Com ternura de seu amigo."

É isso. Confesso que até hoje literaturas como o mal do século me despertam um interesse absurdo. É devorando poemas de Álvares que criei este personagem. É uma carta que mescla modernismo e romantismo. São textos que escrevo de forma experimental, apenas como coisas que eu gostaria de ver, afinal, se não existe, por que não criar? É bom, acredite.

Forte abraço a todos!

O Último Poeta

Posted on sábado, 2 de abril de 2011 by Ewerton Fintelman | 0 comentários
Marcadores: , ,

Quando a última centelha de fogo se apaga, a visão é uma floresta de âmagos cinza. O vazio se esquece pela brisa que carrega a poeira da morte. Floresta cinzenta, negro arrebol. Sinto a vida deixar meu corpo, meus olhos carregados de lágrima vazias se fecharem. Mil pensamentos tentam se configurar, mas o sentimento é compunção da alma.

Das sete vidas que tinha, sete mortes por solidão. Tendência, mas nada elementar. Revolta, mas nada pessoal, mesmo mentira. Ah, opósito amigo! Por que não tive teu sucesso e tu meu talento? Inveja é sortilégio que não tenho, são injustiças das quais não me conformo.

Não digo que volto para o achaque, pois dele nunca saí. O choque de realidade é grande, mas o - infeliz - forte coração é bravo, como se não quisesse nunca padecer. Segue batendo por bater, segue vivendo por viver... sem alma, sem brilho, sem sentimentos. Apenas uma última alma pulsando sozinha no mundo.