A Fábula do Gelo

Posted on domingo, 17 de outubro de 2010 by Ewerton Fintelman | 0 comentários
Marcadores:

Era água. Corrente, transparente, abluido, diáfano. Era mar. Ebulitivo, conflagrado, férvido, frenético. Lânguido por não possuir seu avulto, mas bravo como ele. Sentia-me forte, sólido. Apesar de metaforizar-me no mar, tempestades caíram sobre mim. A bonança foi meu galardão. Fortalecido, ergui a cabeça e segui.

Tornei-me gelo. Mais rígido, frio, teso, severo. Se como água pensava ser imune a tudo, como gelo pensei ser imune até a água. Ingenuidade foi ter esquecido que o gelo é água. Do ponto de vista molecular, somos iguais. Hoje entendi que a água é mais forte. É mais fácil aquecer o gelo que a água. Nesse meio tempo, de gelo tornei-me água novamente.

Estava quebrado, fendido, o fogo abrasador ardendo sobre mim, tomando conta de todo meu vulto. Ora pois, o fogo havia tomado conta de mim. Vencia a água. É um caso proporcional. O fogo era mais volumoso que eu, uma pequena porção de água. Uma chama sem fim contra uma pequena pedra de gelo fundida. Mas como o fogo é bom. Quente, cálido adusto, a chama tomava conta e eu me sentia rendido, seduzido por aquela sensação que me estagnava para apreciá-la.

O fogo vencera. Rendi-me. Desintegrava-me, sentia-me leve como o ar. Tornei-me vapor. Quente, brando, mas acima de tudo, volátil, dorido ao fogo. O fogo não mais me consome. O fogo é parte de mim.

(texto escrito por Ewerton Fintelman)

Nenhum comentário:

Postar um comentário